Meu professor de Redes tinha razão (e eu demorei 5 anos pra perceber)
Da aula de Redes ignorada na faculdade ao servidor caseiro: como organizei minha rede doméstica com Pi-hole, Proxmox e VPN.
Na faculdade, eu confesso: as aulas de Redes de Computadores eram aquelas que eu prestava menos atenção. IP, máscara de sub-rede, DNS... "Isso é coisa de infra, desenvolvedor não precisa saber disso", pensava eu.
Anos depois, cá estou eu — com um servidor rodando em casa, gerenciando IPs como se fosse a coisa mais natural do mundo.
O que me fez mudar de ideia?
Tudo começou quando a quantidade de dispositivos em casa explodiu. Computador, notebook, celulares, TV, lâmpadas inteligentes, Echo Dots, ar-condicionado... de repente eu tinha dezenas de coisas conectadas e nenhum controle sobre nada.
Queria acessar arquivos do PC pelo celular, controlar a casa de qualquer lugar, e entender por que minha internet parecia lenta mesmo com uma boa conexão. A resposta? Uma bagunça de dispositivos competindo por banda sem nenhuma organização.
Foi aí que decidi: vou organizar essa rede.
A Arquitetura Geral
Depois de muito estudo e experimentação, cheguei nessa estrutura:

Segmentação por função:
.2 - .19→ Infraestrutura (servidores, DNS, automação).20 - .29→ Pessoas (PCs, celulares, TV).50 - .59→ IoT Hubs (Echo Dots, ar-condicionado).60 - .99→ IoT Pontas (lâmpadas, smart plugs).100+→ DHCP para visitantes
Parece exagero? Talvez. Mas quando algo dá problema, eu sei exatamente onde procurar. E mais importante: consigo configurar regras específicas para cada "tipo" de dispositivo.
DNS: O coração invisível da internet
Aqui preciso fazer uma pausa pra explicar algo que eu ignorava completamente: DNS.
Toda vez que você digita "google.com" no navegador, seu computador não faz ideia do que é isso. Ele precisa perguntar a um servidor DNS: "Ei, qual o IP desse tal de google.com?". O servidor responde algo como "142.250.79.14", e aí sim a conexão acontece.
Isso acontece centenas de vezes por dia — não só quando você navega, mas quando apps verificam atualizações, quando seu celular "liga pra casa", quando a TV smart carrega propagandas...
E é exatamente aqui que entra a mágica.
Pi-hole: Adeus, anúncios
O Pi-hole é um servidor DNS que roda na sua rede local. Toda requisição DNS passa por ele antes de ir pra internet. E a sacada é simples: ele tem uma lista gigante de domínios conhecidos por servir anúncios e rastreadores.
Quando alguém na rede tenta acessar ads.facebook.com ou tracking.google-analytics.com, o Pi-hole simplesmente... não responde. O anúncio não carrega. O rastreador não funciona.
Isso significa: YouTube com menos anúncios, apps sem banners invasivos, e smartphones que param de "ligar pra casa" de 5 em 5 minutos.
E como backup, uso o DNS público da Cloudflare (1.1.1.1) — se o Pi-hole cair, a internet continua funcionando.
Proxmox: Um computador, vários sistemas
Agora a pergunta: onde roda tudo isso?
Em vez de ter 5 computadores diferentes consumindo energia e espaço, tenho um único servidor com Proxmox VE. Ele é um sistema operacional de virtualização que permite criar containers LXC e máquinas virtuais que rodam de forma completamente isolada.
Pense assim: é como ter vários computadores dentro de um só, cada um fazendo seu trabalho sem interferir nos outros.
O que roda no meu Proxmox:
| Serviço | Função |
|---|---|
| 📁 Nextcloud | Meu próprio "Google Drive" — arquivos sincronizados entre todos os dispositivos |
| 🏠 Home Assistant | Automação da casa — controlo luzes, ar-condicionado, e monitoro sensores |
| 🎬 Jellyfin | Netflix pessoal — minha biblioteca de mídia acessível de qualquer lugar |
| 🔒 Pi-hole DNS | Bloqueio de anúncios em rede |
| 🔄 Node-RED | Automações visuais — integro serviços de forma fácil |
Se um serviço der problema, reinicio só ele. Se quiser testar algo novo, crio um container, testo, e deleto se não gostar. Zero risco pro restante do sistema.
VPN: Acesso de qualquer lugar
Uma das funcionalidades que mais uso é o acesso remoto via OpenVPN. Com ela, mesmo estando fora de casa (no trabalho, viajando, em qualquer lugar), consigo acessar minha rede local como se estivesse lá.
Isso significa: acessar meus arquivos no Nextcloud, controlar a casa pelo Home Assistant, ou debugar algo no servidor — tudo de forma segura, criptografada.
O que aprendi com tudo isso?
- Redes não são só teoria — entender como seu tráfego flui muda completamente sua perspectiva sobre desenvolvimento
- Self-hosting é empoderador — você controla seus dados, não depende de serviços terceiros
- Não precisa de hardware caro — um PC usado ou um mini PC funciona perfeitamente
- Documentação é vida — aquele diagrama de rede salva horas de debug
- Segurança em camadas — DNS bloqueando trackers, VPN criptografando acesso, rede segmentada
Se você também dormia nas aulas de Redes... talvez seja hora de acordar. 😉
E você, tem algum projeto de homelab ou ideia de organizar melhor sua rede? Ou a minha? Me chama e vamos bater um papo!